
No campo da medicina informal, o que
não falta é receitinha milagrosa
(Walcyr Carrasco)
Estive viajando. Mal desembarco, caio de cama gripadíssimo. Alguns amigos próximos fogem o mais rapidamente possível, dando provas de que o instinto de sobrevivência é mais forte que qualquer laço fraternal.
– Gripe, é? Tem certeza de que não é.... – aventura Ricardo, pelo telefone.
– Não, não é a tal pneumonia asiática – garanto.
Silêncio do outro lado da linha. Como eu poderia ter certeza? Não estava no exterior? Não peguei avião?
– Bem... então a gente se vê assim que você estiver bom.
Outros passam a cuidar da minha medicação.
– Tome isso, fiquei curado da gripe em dois dias – orienta Marcelinho.
Pacientemente, explico que não se pode ir tomando qualquer remédio. Eu, por exemplo, tenho alergia a antibióticos. O remédio pode ser pior que a doença.
– Este eu garanto. Não vai fazer mal – afirma ele, enquanto tenta me enfiar dois comprimidos pela boca.
E assim começa uma sucessão de tratamentos. Própolis. Vitamina C. Chá de canela.
– O ideal é ferver folhas de laranjeira, tomar bem quente com conhaque e depois ficar uma semana sem tomar banho – recomenda uma amiga natureba.
Segundo detalha, a pele emite um óleo protetor que jamais deveria ser removido. O próprio ato de tomar banho com freqüência seria totalmente antinatural.
– Posso até me curar, mas serei expulso do prédio – rebato.
Cada um que aparece vem com novo tratamento. Gente fazendo chazinho. Trazendo um novo remédio infalível. Inventando dietas. Minha secretária do lar aventura-se a criar uma sopa energizante, à base de arroz, batatas, carne e gengibre, copiada de alguma revista feminina. Alguma coisa sai errada. Viro a panela no lixo. A gororoba desliza inteira, de uma vez só. Atinge o fundo fazendo um suspeito ruído de... plact! Começo a ficar mal do estômago. Fujo para a chácara.
Deito, para repousar um pouco.
Desperto com um agradável cheiro de eucalipto. Epa! Eucalipto!?
Meu caseiro também pretende atuar no campo da medicina informal. Ferve folhas de eucalipto. Depois, bate no liquidificador. Bota mel. Tenta enfiar a gosma verde por minha goela abaixo.
– Não, não, já estou me sentindo bem melhor – tento me defender.
– Mas com isso o senhor vai ficar curado. Quando eu era pequeno, minha mãe...
Explico pacientemente que já fui ao médico, no primeiro dia. Só me receitou vitamina C e cama. O caseiro me observa mortalmente ofendido. Suspiro e aceito uma xícara. Provo. Eta coisa ruim. Tento disfarçar. Não dá. Ele fiscaliza cada gole. Mal termino, minha pele começa a coçar. Urticária.
Assim, além da gripe, sinto coceiras por todo o corpo. Chega uma visita.
– Urticária? Ah, mas eu tenho um remédio que é tiro e queda.
Faço de tudo para me salvar. Já tive urticária várias vezes na vida. É esperar passar, comendo coisas leves. E, principalmente, não inventando tratamentos. Adianta?
Ela fica ofendidíssima. Recusar um remédio é ofensa grave. Age como se fosse quebra de confiança. Não se conforma.
– Só estou querendo ajudar!
Volto para o apartamento e me escondo. Tomo uma decisão. Paro de tomar todos os remédios. Fico só com a vitamina C que o médico aconselhou. Em dois dias, pára a queimação do estômago. A moleza do corpo diminui. A urticária cede um pouco. Meus dois neurônios voltam a funcionar. Reflito. Automedicação é um risco. Remédios dos amigos não são piores? Mas quem acredita? Mal volto a falar com a turma e vou ouvindo:
– Viu só? Aquele meu chazinho é que tirou você da cama...
– Se não fosse aquele remédio que eu indiquei... e você nem queria experimentar!
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