domingo, 10 de fevereiro de 2008

Desculpas esfarrapadas


Pequenas mentiras do cotidiano
para fugir da saia justa

(Walcyr Carrasco)


Sempre fui um dorminhoco. Adoro acordar tarde. É o tipo de coisa malvista por possíveis empregadores. Em época de vacas magras, eu instruía o pessoal de casa a dizer todas as vezes que alguém ligasse:

– Ele está no banho.

Nada mais prático. Quem está no banho não atende ao telefone. O problema é que algumas pessoas ligavam várias vezes, hora após hora. A resposta, invariável. No banho.

– Será que ele não se afogou embaixo do chuveiro? – vinha a pergunta irônica.

Ou batiam o telefone.

– Se ele não quer me atender, por que não diz de uma vez?

Ganhei a fama de ser o homem mais limpo da cidade. O sabonetinho, como diziam! Chegaram a me citar uma crônica do Nelson Rodrigues sobre o tema. Ou seja: acabou a desculpa. Mas, nessa era de celulares, de comunicação rápida, como se safar? Faço terapia todas as sextas-feiras. Quando estou esperando alguma ligação importante, deixo o celular ligado. Às vezes não reconheço o número no visor. Em dúvida, atendo. Já tentei mil vezes explicar:

– Estou no meio de uma consulta e...

Que adianta? A pessoa continua falando, falando! Agora uso o estratagema do túnel.

– Ih! Olha, estou no meio do trânsito... Ih, estou entrando em um túnel... Se a ligação cair... Não estou ouvindo mais nada... Alô? Alô? Ih!

Desligo, enquanto o interlocutor se esgoela do outro lado. Muita gente usa o truque, de tão bom. Já está ficando velho.

Antes da revolução das comunicações, o interurbano funcionava como desculpa. Bastava mandar dizer:

– Ele está em um interurbano.

Falar com outra cidade era complicado. Todo mundo compreendia. Nesta era de DDD e DDI facilitados, é uma desculpa esfarrapadíssima! Mas a do chefe ainda funciona.

– Sinto muito, ele está em reunião com o diretor.

Dá certo e confere status. Reunião privada com o diretor não é para qualquer um. Podem ligar vinte vezes no dia. Quanto mais longa parecer a reunião, mais importante será o cargo. A não ser que venha um rugido do outro lado.

– Invente outra. Quem está falando sou eu, o diretor. Afinal, onde é que ele está?

Há uma que está entrando na moda.

– Liguei o dia todo e você não atendeu.

– Mas eu estava em casa. Houve um problema nas linhas telefônicas de todo o bairro. Ficamos incomunicáveis.

A desculpa costuma provocar um gesto de solidariedade. Raios, trovões, ventanias. Tudo mexe com as linhas. Bateria do celular que pifa é outra. A pessoa está doida para se livrar. Então começa:

– Oh! A bateria está pifando... Olhe, se a ligação cair, depois eu ligo.

E bate o telefone na cara de quem ligou, a salvo!

Excesso de trabalho funciona. O problema é quando uma desculpa óbvia se contrapõe a outra mais óbvia ainda. Como quando o casal se encontra, depois de um cano.

– Desculpe ter deixado você esperando ontem à noite, querida. Surgiu um projeto superurgente, fiquei até tarde trabalhando. Nem me agüento em pé – diz ele, aproveitando para disfarçar as olheiras e os sinais de ressaca.

– Ah, meu amor, eu até fiquei preocupada! Houve um problema nas linhas do bairro. Para cúmulo, a bateria do celular pifou. Então, se você tentou ligar... – responde ela, inocentemente.

Os dois se olham, imperturbáveis. E agora? A sorte foi que não deram de cara um com o outro na farra!

Os tempos mudam. A tecnologia dos pretextos evolui. A desculpa ganha roupa nova. Mas dificilmente muda a aparência. Desculpa que é desculpa sempre tem jeito de esfarrapada!

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