quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Pão-duro ou econômico?

Um amigo me coloca uma questão delicada: "Você acha que eu sou pão-duro?". Antes que eu tivesse tempo de entrar no assunto, ele se antecipou, fornecendo o ângulo sob o qual, suponho, preferia que o tema fosse tratado: "Ou econômico?".

Hesitei entre atacar a primeira pergunta e aceitar a discussão semântica que ele abria com a segunda. Que atitudes e circunstâncias poderiam definir o pão-duro ou o econômico? Seria uma questão de gradação, de mais e de menos, ou seriam coisas completamente diferentes?

Meu amigo é pão-duro, um acabado sovina, mão-de-vaca consumado, mas bom sujeito. Eu, dividido entre não fugir da verdade e não magoá-lo, ataquei suave: opinei que o que separa os dois modos de ser é a necessidade. Sentiu que o terreno era perigoso para ele, pois não freqüenta a zona da necessidade. Lembrou que muitas pessoas herdam hábitos familiares, conseqüência de circunstâncias de poupança forçada e continuada que acabam virando um traço de família. Dava na vista que ele preferia ir levando a conversa para um lado mais teórico. Estaria arrependido de ter perguntado?

Sem a pretensão de estar certo, afirmei que família não tem tanto peso assim, que não conheço adolescentes sovinas, e isso é porque eles ainda não têm relação fetichista com o dinheiro. Não importa racharem um lanche ou um refrigerante, isso é sobrevivência, mesada apertada. Os economistas chamam de conjuntura.

Ele lembrou, teórico, que existem também dificuldades financeiras pessoais momentâneas que levam a atitudes de aparente pão-durismo. Perguntei com malícia: "Não é o seu caso, é?". Acusou o golpe.

Estávamos em uma festinha e, embora um pouco afastados, foi impossível evitar que parte da conversa fosse ouvida. Acharam que era um papo genérico e alguém logo se lembrou do ex-presidente famoso pelo pão-durismo, e contou a última dele. Bastou para um outro dizer: "De pão-duro e de louco todos nós temos um pouco" – e aí perdemos o controle, logo todos se lembravam de um lance sovina, e acabou surgindo uma brincadeira de fazer lista de pão-durismo explícito, muitos lembrando-se, no fundo, de coisas que eles mesmos já fizeram. Gritos animados com sugestões para a lista do que o pão-duro faz cruzavam a sala:

– Cobra troco de 1 centavo.

– Guarda para reutilizar o pedaço de esponja de aço usado, empapado em sabão para não enferrujar.

– Conserva camiseta furada para dormir ou para usar por baixo da camisa.

– Embrulha de novo o chicle mascado para mascar mais tarde.

– Aproveita no jantar o guardanapo de papel que mal usou no café-da-manhã.

– Convida a vizinha para tomar um chá e pede para ela levar o chá.

– Aproveita as frutas amassadas para fazer sucos e cremes.

– Roda com pneus do carro carecas até começarem a aparecer os arames.

– Aproveita para anotações o outro lado dos papéis impressos não usados.

– Guarda caixas e embalagens de presentes que ganhou para embalar presentes que vai dar, com a desculpa de que pode precisar num dia ou hora em que não haja papelaria aberta.

– Gruda restinho de sabonete que está acabando no sabonete novo.

– Pega o pó de café que já foi coado, põe para secar no forno e soca para usar de novo.

– Guarda pastilha para garganta meio chupada para quando a tosse ameaçar de novo.

– Pega aquela camiseta que usou até virar molambo e passa a utilizá-la como pano de chão.

– Só liga interurbano depois das 9 da noite, tarifa diferenciada.

– Só lê revista emprestada. Sabe aquela? "Ah, minha cunhada assina."

– Guarda para usar depois o cotonete do qual só utilizou uma ponta.

Meu amigo não estava achando graça. No fundo ele sabia por quê.

( Ivan Angelo)

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